A Oferta

Manhã ensolarada no meio da semana.  O melhor momento para dar início a um passeio pelo Rio de Janeiro. Não havia modo de fugir disso, uma hora ou outra eu ia acabar passando por essa experiência. Não se vive um mês numa cidade grande sem dar-se ao trabalho de conhecer ao menos o próprio bairro. Portanto saí. Fui conhecer a famosa Rua do Ouvidor, estreita e com um mar de gente pressionado para passar. Eu podia até ouvir o célebre fantasma de Joaquim sussurrando ao pé de meu ouvido as ideias de um conto que ele não escreveu.

Resolvi depois entrar em uma igreja antiga, de São Bento, para observar o seu interior dourado e, na entrada, encontrei sentada nas escadas uma senhora. Pude reparar que seu rosto rosado era abalado pelos sinais da idade avançada. Ela usava saia comprida cor de vinho, um casaco bege e uma espécie de manta. Estava tão frio assim? As sandálias de couro estavam gastas e sujas e ela tinha um lenço na cabeça.

Os olhos delas eram de um azul abrandado pelo tempo. Pensei mesmo que, outrora já foram mais vivos. E não tão melancólicos, quem sabe. Ela tinha no colo caixas pequenas e, envolta da mão esquerda, um terço de contas e cruz de madeira. Parei de observá-la por um tempo, não devia ser confortável ser encarada daquela forma. Havia um chapéu de palha ao seu lado, onde vi algumas poucas moedas opacas. Com aquilo ela não poderia comprar sequer um pão de sal na pior das padarias.

Levei as mãos ao bolso da calça. O que eu tinha era o suficiente para o sorvete e para fazer a feira por onde eu passaria mais tarde. Uma quantidade significativa de dinheiro. Na certa, conseguiria pagar o sorvete de mais três amigos também. Hesitei. Devia deixar algum dinheiro para ajudar aquela senhora? Precisava entrar na igreja logo.

Estava parado. Não queria adentrar na igreja. Não conseguia desviar meus olhos da senhora. Ela percebeu que meus olhos estavam pousados nela. Ela passou a me analisar também. Eu não sabia o que fazer. Meu dinheiro compraria os remédios. Finalmente eu entendi. As caixas no colo da mulher eram do remédio que o posto de saúde não poderia fornecer a ela.

Um amigo veio até mim e olhou para a velhinha, lançando um olhar de censura. Ele disse que não passava de mais uma preguiçosa, que queria ganhar dinheiro à custa da boa vontade dos outros. Eu não sabia se concordava ou não. Tantas pessoas que não puderam estudar ou trabalhar e foram somente vítimas das conjunturas.

Olhei pela última vez para a ela e depositei todo o meu dinheiro no chapéu. Ela agradeceu com um desajeitado sorriso. Ela que fizesse o que bem entendesse com aquela oferta. Que comprasse seus remédios, que comprasse outro par de sandálias, que o usasse para livrar seu neto traficante da cadeia, que o ofertasse a São Bento por curar-lhe de alguma enfermidade. Eu não sabia o que ela ganharia com tudo aquilo. Mas sabia perfeitamente o que eu havia ganhado naquele dia.

Beatriz Zanon Amaral, 2009.

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